15Mar/16

Socorro – O meu filho aprendeu a mentir

POR: Mirela AciolyCATEGORIA: Diversos(0) COMENTÁRIOS

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No outro dia, uma mãe no instagram pediu que a ajudasse. A filha de três anos tinha contado à professora que a mãe a havia jogado na parede e batido nela de chinelo. Coisa que não aconteceu.

Procurei ajuda para poder ajudar essa mãe e encontrei a Psicologa Erika Torres que se prontificou a escrever este texto bastante interessante sobre a mentira contada por crianças:

“Se tomarmos a mentira como um conceito socialmente construído por adultos, onde acontece uma deturpação intencional da verdade, podemos dizer que a criança, em sua primeira infância (em geral os 5 primeiros anos), não é capaz de mentir. O conceito do adulto sobre mentira não é o da criança. Definitivamente!! A criança não distingue a realidade de seu mundo imaginário e mentir pode trazer um pouco de certeza de que seu mundo imaginário interno é pessoal.

Na criança, a distinção entre verdadeiro/falso, verdade/mentira vai se construindo progressivamente. A criança pode até partir da realidade, mas há muito de seus conflitos internos e já inconscientes que comparecem. Sendo assim, no discurso da criança, há marcas da realidade e também de sua imaginação.

De modo geral, a mentira cria o mundo ideal das crianças, um mundo mais bonito. Mas e quando a mentira é “feia”, quando os cuidadores avaliam “não ter nada de errado”? Pode ser que não haja nada de errado mesmo, é o tempo da criança de fazer as suas travessias, é a tentativa de dar aos adultos uma explicação que a criança não encontra em si mesma, ela sente necessidade de explicar e assim vai criando/inventando histórias.

É a forma que ela encontra de explicar o que não sabe, por vezes acaba acreditando naquilo que fala. Logo para o pequeno infante, a mentira é a verdade, a verdade de que ela nada sabe. Por isso, muitas vezes os adultos não conseguem compreender porque simplesmente não enxergam que ela não sabe o que fez e porque fez.

A criança passa a descobrir que seus pais não podem conhecer e adivinhar todos os seus pensamentos e assim ela vai pouco a pouco testemunhando que há um limite entre o imaginário de cada um.

A “mentira” pode estar ligada a onipotência do pensamento, que pode estar a serviço do narcisismo infantil (estado em que a criança investe toda sua libido em si mesmo). É importante entender como está o vazio narcísico da criança.

Pode estar ligada também com o declínio do poder parental…a mentira tem várias funções. Trabalho no sentido de saber NÃO porque as crianças mentem, mas porque as vezes dizem a verdade. Dizer a verdade faz parte da aprendizagem progressiva, que pode estar relacionada à fase oral da criança onde ela diz “não” às situações. Aos poucos, com os pais estimulando a criança a dizer a verdade, fará com que a criança queira agradar os pais e passem a satisfazer seus pais e as exigências sociais.

Podemos distinguir a mentira da criança de três tipos: utilitária – mentir para obter vantagem, é a dissimulação, assemelha-se a que os adultos fazem – compensatória – traduz a busca de uma imagem inacessível, perdida, é normal até os 6 anos de idade, depois pode indicar traços psicopatológicos – e mitomania – grau extremo desse devaneio fabulatório. A criança pode estar enfrentando carências não apenas de aportes afetivos, mas também na linhagem parental, incertezas na identificação parental.

Um certo número de mentiras contadas por crianças bem educadas possuem significação especial e deveriam fazer com que seus responsáveis refletissem, ou invés de ficarem zangados. Essas mentiras ocorrem sob a influencia de sentimentos excessivos de amor e se tornam momentosas quando conduzem a uma má compreensão entre a criança e a pessoa que ela ama, assim nos orienta Freud.

Aos cuidadores, “embarquem” nessa mentira, não para reforçar o comportamento de mentir, mas para extrair ao máximo a riqueza do mundo interno da criança, que traz seus conflitos e muitas vezes dizem daquilo que ela própria vive. Façam perguntas abertas como por exemplo: Como foi isso? Tinha alguém com você? Eu também posso ver? É importante perguntar, aventurar-se nesse delicioso mundo infantil.

Não perguntemos mais a ela por que mente ou por que faz o que faz, perguntemos a nós, adultos, o que fizemos para que essa criança, de repente, passe a ser um incômodo e um problema, e aí estaremos também não mentindo para nós mesmos ao nos dizermos que estamos sempre certos.

O impacto clínico dessa mentira precisa de ser avaliado no caso a caso, de acordo com a história de vida da criança e também sob um olhar voltado para a família. Não há que se falar em patologia, mas em sintomas psíquicos que aparecem nesses pequenos seres que estão se desenvolvendo”.

Texto escrito pela Psicologa Erika Torres

CRP: 09/8578 

Instagram: @erikatkeeney
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